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Atualizado em 06/11/2017

CARLOS SANTIAGO #Amor de menino

CARLOS SANTIAGO #Amor de menino

Eu tinha apenas 12 anos de idade e não olhava aquela menina moça como antes. O meu corpo passava por transformações. Cresciam em mim pelos, a voz já não era a mesma, os músculos enrijeciam e as acnes tomavam conta do rosto. Não me sentia criança e nem adulto. Até convicções sobre a vida e o mundo iam mudando.

 

Sentia que ela sorria diferente pra mim. Com 13 anos de vida, com o aumento do quadril, do peso, da estatura e dos seios, aquela menina também chamava atenção pela disposição de vender tapioca com coco ralado num tabuleiro na cabeça.

 

Quando a enxergava, o meu coração fazia mais barulho, ficava nervoso de felicidade, tinha vontade de dizer algo e lhe escrever o que passava dentro de mim, mas ainda não era alfabetizado e ficava muito envergonhado com isso. “Dialogava” com ela somente quando falava sozinho e buscava sempre a sua presença nas músicas que ouvia num radinho de pilha velho.

 

Numa tardinha chuvosa, ela passou em frente de casa, com o tabuleiro de venda já vazio. Estava molhada, descalça e sorria com as águas no rosto. Num impulso, saí na chuva para vê-la descer a ladeira da rua sem asfalto, mas de repente ela me chamou para brincar na chuva. Timidamente, aceitei. Passamos horas tomando banho.

 

Na despedida, ganhei o primeiro beijo e um “aperto” de mulher decidida. Aconteceram outros beijos, em outros momentos, tão marcantes que vou levá-los pra toda vida. Não passou muito tempo e a moça mudou-se para outro bairro, algo natural nas periferias da cidade, onde é grande a mobilidade de famílias pobres que não possuem moradias e nem trabalhos fixos.

 

Durante décadas procurei um pouco daquele primeiro amor em outras relações que experimentei. Aquele sorriso, aquela cor de pele, a disposição pela vida com muito trabalho, em especial, aquele abraço e aquela força de uma mulher decidida. Mas com o tempo e a maturidade percebi que as mulheres são diferentes e os momentos são únicos.

 

Agora, com meio século de existência posso afirmar: o primeiro amor é inesquecível. Mas, devemos guardá-lo num cantinho das lembranças para que outros amores aconteçam.

* O autor é Sociólogo e advogado.

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