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Atualizado em 06/08/2015

ANDRÉ SEFFAIR # A Lava-Jato pôs "noís" na fita

ANDRÉ SEFFAIR       # A Lava-Jato pôs

A histórica governança sucessiva sem escolha democrática levou a um natural distanciamento da Sociedade Brasileira dos assuntos mais sérios e profundos da política, provocando um inegável distúrbio de avaliação do povo em relação à realidade. Em 193 anos de história nacional, elegemos pouco mais de 40 anos de governos democráticos (República Velha não conta, era oligarquia).

 

Nossa visão distorcida só comporta “o oito ou o oitenta”; ou engolimos calados, como lesos, as imposições despóticas das administrações de plantão, ou esculhambamos tudo, concluindo equivocadamente que todas as instituições da República trabalham indistintamente em conluio para roubar dinheiro público e encobrir desvios.

 

Temos a percepção de que outros países possuem regimes perfeitos, principalmente a Europa Ocidental e os Estados Unidos, e só o Brasil é bagunçado.

 

Sempre ouvi dizer que nos Estados Unidos não tem conversa, políticos “vão pra cadeia”. Isso é uma meia verdade. Toda sociedade tem seus “intocáveis”, lá são os grandes magnatas. Por aquelas bandas, até hoje, não foi pra cadeia nenhum dos peixes graúdos de Wall Street, responsáveis pelos múltiplos crimes financeiros que provocaram a crise econômica de 2008.

 

Aqui, como toda lógica é subvertida, primeiro estão indo pra cadeia os patrocinadores, grandes financiadores de campanhas, nossos “intocáveis” ainda são os políticos, os patrocinados.

 

A operação Lava-Jato vem provocando estragos no conluio estabelecido há décadas entre grandes financiadores de campanhas e políticos.

 

Ainda não nos demos conta do novo cenário, mas este estará plenamente evidente nas próximas eleições, que não deverão contar mais com o gordo auxílio das empreiteiras investigadas.

 

A parada funcionava assim: Campanha eleitoral é cara, todos deviam saber disso. Não tinha problema. Empreiteiras pagavam a conta. Os “garotões”, mais amados pela população, que ignorava (ou fingia ignorar) os esquemas, se elegiam e garantiam a devolução da grana investida, mediante manutenção de contratos superfaturados de produtos e prestação de serviços ao setor público. Para colocar a “cereja do bolo”, pagavam propinas milionárias para funcionários indicados pelos partidos e políticos beneficiados (que juram não saber de nada!), em contas bancárias secretas no exterior.

 

Quem ainda ignora (ou finge ignorar) esse esquema, me dê uma resposta convincente sobre os motivos que levam alguém a “doar” milhões de reais para uma campanha eleitoral. Até hoje não me deram resposta plausível, exceto se o doador receber nos quatro anos seguintes, bilhões por contratos que inicialmente valeriam pelo menos metade do valor que realmente deveria ser pago pelo contribuinte.

 

E nesse esquema também vão, de lambuja, obras fantasmas, serviços feitos pela metade (mas pagos integralmente), contratos superfaturados de empresas coletoras de lixo, contratação de amigos, banquetes, negociatas, patrocínio de eventos culturais e toda sorte de sem-vergonhice em geral.

 

A cada quatro anos o pessoal mais querido pelo povo precisava de mais grana pra se eleger, a cada quatro anos tinha uma galera, gente boa, disposta a ajudar. Essa galera gente boa, por causa da lava-jato, agora está na cadeia... quem se habilita a ser o "gente boa" da próxima eleição? A recompensa era imensa, melhor que traficar droga.

 

Não inventamos a corrupção, mas a aprimoramos e a institucionalizamos como nenhum outro país pretensamente civilizado.

 

Tá certo, os políticos (ainda) não estão na cadeia, que inveja dos americanos... Mas eles também tem um motivo pra morrer de inveja da gente, porque os intocáveis de lá são meros mortais nesta terra de Nosso Senhor. É "nóis", mano! Viva a Lava-Jato!

 

Mas se aguente aí Ministério Público, não vai ficar barato. A desforra dessa galera gente boa virá. Os queridos eleitos pelo povo, financiados pelos presos, são eloquentes, não vão cair sem guerrear, mas isso é assunto pra depois. Até!

O autor é promotor de Justiça do Amazonas

 

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