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Atualizado em 22/06/2015

NELSON BRILHANTE #Ser parintinense

NELSON BRILHANTE  #Ser parintinense

É comum se ouvir que o manauara, devido ao grande fluxo de “estrangeiros” para o Distrito Industrial, perdeu a identidade. O mesmo não se pode dizer do parintinense, cuja identidade foi esculpida com a força do índio e do caboclo, com a influência de dominadores portugueses, de padres italianos, pastores norte-americanos e de agricultores japoneses, entre outros. Não que isso seja diferente de muitas outras cidades do interior do Amazonas, mas poucas têm sua marca colocada à prova, por um Festival Folclórico de dimensões universais.

 

Inexplicavelmente, não temos notícia de que “umzinho” artista de boi (de ponta), tenha nascido fora de Parintins. A força dessa identidade afasta qualquer ideia de transferir o Festival para Manaus. Por cinco décadas, a cada última semana de junho a cidade é invadida por milhares de pessoas de todas as tribos raças e nacionalidades. A Ilha fica sufocada com o dobro da população nativa e, mesmo assim, como se houvesse um pacto, ninguém foge às origens, não perde o sotaque nem o comportamento ordeiro e acolhedor.

 

No meio de todo o “furdunço” não é difícil saber quem é da Ilha. O jeito maroto e calado revela alguém que vê seu espaço invadido, mas que prefere a condição de observador. Engana-se quem pensa que o “baque”, aparentemente tímido, tem a ver com coisa de matuto. A reação é a de um artista que presencia, sereno no seu canto, os visitantes tomarem conta da galeria para admirar suas obras, sem que as mais variadas interpretações possam alterar seu estilo.

 

É a maior comprovação de que o parintinense é boa gente e sabe receber. É como se quisesse dizer, orgulhosamente, “curtam a festa. Fui eu que fiz”. As portas da cidade se abrem para todos e cada um dos moradores se transforma em recepcionista, sempre pronto a alojar, abrir espaços e a fornecer a informação correta.

 

Entre os nativos, a simplicidade da mais humilde dona de casa não é menor que a do criativo artista, responsável pela exuberância da festa. Mas, não abuse. “O parintinense é tímido até um certo ponto. Mas, falou mal da nossa terra, o tempo fecha”, alerta a ex-sinhazinha da fazenda do Garantido, Álbia Neves.

 

TRANSPOSIÇÃO>> Quando julho chega, o parintinense volta a tomar conta do seu espaço, que esteve “emprestado” aos visitantes. Cinco dias depois da comemoração pelo título e das lamentações pela derrota, vencedores e perdedores trocam as emoções da festa profana pela união da sagrada. É no círio da padroeira Nossa Senhora do Carmo que o vermelho e o azul se unem e todos se redimem dos excessos cometidos.

 

SABE O QUE QUER>> Não é por acaso que alguns promotores de eventos mais afoitos e desinformados já amargaram grandes prejuízos de bilheteria. Em meados da década de 90, por exemplo, não chegou a cinqüenta o número de presentes a um show do então badalado grupo Polegar. E a consagrada Roberta Miranda teve de cantar para um Bumbódromo vazio.

 

Na mesma época, um grupo formado por artistas de ponta da Rede Globo, que excursionava pelo Brasil jogando futebol, ficou extasiado com a falta de assédio da população da Ilha. Lima Duarte e Nuno Leal Maia não esconderam a admiração, ao bebericarem uma caipirinha, sem serem incomodados, no bar do Erivaldo Maia, na Praça do Cristo Redentor. Há dois anos a socialite carioca Carmen Mayrink Veiga foi reconhecida numa lojinha de bujingangas na Ilha, mas a abordagem não passou de um “seja bem vinda à nossa terra”.

 

A influência da formação familiar é básica. Para os nativos, não há tempo passado. Independentemente da posição social que ocupa no presente, poucos deixam de se benzer ao passar em frente à catedral de Nossa Senhora do Carmo, e de tomar a bênção dos pais e padrinhos. E olha que a maioria ainda tem o padrinho de crisma e até de fogueira. “Toda vez que volto, cumpro um ritual: deixo as malas em casa e, sem trocar de roupa, vou tomar o tacacá da ‘dona’ Maria (próximo ao Basa)”, diz Geane Benoliel, que durante quatro anos foi cunhã poranga do Caprichoso.

 

De acordo com o sociólogo Wanderley Holanda, 58, morador de Parintins há 25 anos, esse comportamento não é “pavulagem”, e sim, influência da própria origem. Mesmo que subjetivamente, Holanda atribui o jeito de ser do parintinense ao dos ancestrais indígenas, principalmente dos Tupinambás, índios de cultura desenvolvida, oriundos do litoral nordestino. Diz a lenda que foi a fusão entre as tribos Tupinambás e Parintintins que produziu o “DNA” criativo do povo da Ilha. Esse é, “pavulamente”, o jeito de ser parintinense.

Parintins-AM,  27 de junho de 2004

*O autor é jornalista

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