Sexta, 05 de março de 2021

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Atualizado em 21/02/2021

ROBÉRIO BRAGA - A epidemia que não acaba

ROBÉRIO BRAGA - A epidemia que não acaba Robério Braga

Ceifando vidas, destruindo famílias, empobrecendo a cidade, matando as empresas e todos os negócios que impulsionam a economia, destruindo reputações e emparedando governos, a epidemia desse vírus segue desde o ano passado e vai se estendendo sem prenúncio de ser contida. No “front” dos hospitais, nos mais diversos níveis de trabalho, operadores da saúde se mantém resistindo como heróis em plena guerra, combatendo o bom combate, ora vencendo, ora perdendo, mas sem abandonar o posto.

 

Não é de agora que a humanidade é obrigada a atravessar momentos de grande dor como este, e se vê atarantada com crises de saúde pública. No século XIX, por exemplo, foram sentidas as pandemias  da peste negra, da varíola e da febre amarela, além de outras doenças tidas como endêmicas, mas, também, de gravidade, e que nem sempre tiveram boa resposta rápida da medicina, tais como a sífilis, a tuberculose, a febre tifoide, o tifo, a malária, o sarampo, a coqueluche, a meningite, as mais variadas gripes, a difteria, e a pior de todos, segundo os estudiosos, que foi o cólera-morbus que avançou sobre nossa região deixando centenas de mortos, a tal ponto que foi aberto um cemitério especialmente para os vitimados pela doença, logo depois lacrado e esquecido. Foi o Cemitério da Cruz, na atual Rua de Leovegildo Coelho, na frente antiga da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios.  

 

Tal como agora, o cólera foi arrastando sofrimento e dor desde a Ásia distante e se esparramou pelo mundo, vitimando muitas cidades desde a Rússia, Europa e América, sobretudo em Paris, Londres e Porto, com resultados fatídicos mais expressivos que a própria guerra. Segundo diziam os médicos, o problema decorria muito mais das questões de higiene nas casas e ruas, mas não só pela água e alimentos contaminados, pois a isso se juntava a mobilidade de doentes. Do mesmo modo que presentemente, diante da expansão da doença e da incerteza do tratamento, os estudos e debates científicos se fizeram de forma intensa.

 

Na época, diverso dos dias correntes, os hospitais não dispunham do aparelhamento técnico de que se podem valer agora, nem de recursos de exames que hoje são muito comuns, e, também por isso, o enfrentamento do mal foi mais complicado. O que mais os jornais e revistas falavam era na necessidade de isolamento e na intensa e perfeita higiene pessoal, na limpeza das casas e das roupas e no arejamento dos ambientes de residência como medidas preventivas, antes da chegada dos médicos com suas fórmulas preparadas em busca de sarar o doente.

 

Boa parte do povo, ao seu modo e conforme a tradição do lugar e crenças herdadas, ou seguindo o que se falava na imprensa, também procurava fazer a sua parte valendo-se de fricções, chás, alimentos especiais sempre quentes e até um xarope preparado de maneira especial, que incluía goma-arábica, ovo e láudano. Era um verdadeiro vale tudo, o mesmo que se repete no tempo de hoje.

 

A epidemia do vírus que nos assusta, deprime, que obriga ao rolhimento social e quase isolamento completo, e nos deixa à espera da vacinação coletiva, parece que vai rivalizando com todas as outras crises de saúde pública mundial de que temos conhecimento e, pelas bandas da nossa floresta, vai carregando sonhos, esperanças, alegrias, competências e habilidades ao eliminar pessoas que tinham muito a contribuir para uma sociedade melhor, desastre que soma a mais de dez mil almas.

 

Até quando, dizem os fiéis crédulos e os incrédulos, também; até quando vamos suportar o isolamento, a solidão, a dor, as perdas e a tristeza de parar no tempo enquanto o tempo corre sem se aperceber que estamos retidos na frente da estação. Até quando se o vulcão não cessa de expelir suas larvas e dizimar vidas.

*O autor é presidente da Academia Amazonenses de Letras

 

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