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Atualizado em 04/01/2020

ROBÉRIO BRAGA # Lágrimas de boi-bumbá

ROBÉRIO BRAGA # Lágrimas de boi-bumbá Robério Braga, presidente da Academia Amazonense de Letras

O Touro Negro chorou! Chorou de dor, de profunda dor, na despedida do “pop”. Enquanto a massa humana formava a procissão do acompanhamento do corpo inerte silente, o Touro Negro seguia na frente consolado pelo Boi do Povão que sofria engasgado com a mesma agonia. Parecia que ambos estavam encantados. Nunca vi tanta emoção! O povo cantava com o coração. Nunca vi tanta saudade nem tanta vontade de ressuscitar um irmão.

 

Ao longo do dia a chuva fina que caía sem parar parecia representar o adeus de todos os fãs, de tanta gente que o conhecia, de todos...de todos que o admirávamos. Eram lágrimas que desciam do céu. Era a saudade que falava. Seria a vontade de reviver os dias de glória ou a tradução de tantas vitórias? O que penso, e parecia ser, era o choro e o grito da galera agradecendo por muitas alegrias.

 

Esse Arlindo!. Esse Arlindo campeão foi se despedir quase na hora do nascer do ano como se estivesse querendo dizer:

 

 - Meu irmão, eu vou porque tenho de ir, vontade não tinha não, mas vou no canto das águas, vou com o remo na mão, vou cantando, vou feliz, sei que cumpri minha missão.

 

Eu te digo, companheiro e amigo, como falei muitas vezes antes dessa hora doída: teu povo não vai te esquecer. Tua voz vai continuar vibrando na imensidão do show. Não fostes só um artista – um grande artista - fostes um irmão de muitos e muitos que eu sei. Um homem de bom coração, humilde e trabalhador, sonhador e idealista, capaz de buscar a estrela no alto do firmamento para fazê-la brilhar no encanto da tua voz.

 

Eu sei...eu sei... eu sei que todos vamos partir deste mundo de ilusão, mas isso não quer dizer que tenhamos de conter as lágrimas, fugir da emoção e não sentir falta daquele que se encantou por primeiro, que correu mundo, mundo mundo vasto mundo, como dizia o poeta, aquele que fez escola, formou família e escreveu sua própria história.

 

A partir de agora, todas as vezes que a festa for começar no junho de São João na terra do boi-bumbá, ninguém vai deixar de lembrar aquela voz elegante, aquele jeito educado, aquela forma feliz de começar o festão: - Ooiiiiiiiiiii! Hora em que a galera tremia, o povo vibrava e o Touro Negro se enfeitava de fitas e ia se preparando para entrar na arena com jeito de campeão.

 

No dia do teu último beijo na terra dos teus amores, como se fosse um milagre pela tua despedida, na Santa Igreja do Carmo, em plena rua e nos currais, todos os tambores se entregaram em oração, e creia, marujada e batucada formaram um só cordão, deram-se as mãos e rezaram com fé e união.

 

  Não teve boi Garantido, não teve boi Caprichoso, foi tudo uma só emoção. Aquela animosidade das muitas disputas que costumavam contar, você conseguiu acabar. Foi uma festa a despedida, tal como devia ser, feita para te agradecer. Foi uma festa de saudade, tal como devia ser, porque doía deixar de te ter entre nós. Foi coisa feita com o coração saindo pela boca nas terras dos manaó e dos parintintin, e todos puderam te dizer adeus.

 

O Touro Negro chorou! Chorou de emoção, no último abraço do ano para homenagear o levantador campeão. Ao seu lado, sofrendo da mesma dor, o Boi Vermelho se vestiu todo de branco para dizer: - vai em paz, meu irmão, porque juntos vamos cantar um só refrão em todos os festivais, vamos seguir tua lição de fé, humildade e amor.

 

E daqui há muito anos, quando alguém for contar sobre esse dia de saudade eterna, vai haver quem relembre a única vez que se viu lágrimas em boi-bumbá banhando a estrela e o coração do povo amazonense.  

*O autor é presidente da Academia Amazonense de Letras

*Artigo, originalmente, publicado no Jornal A Crítica 

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