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Atualizado em 03/12/2019

CARLOS SANTIAGO # Suicídio

CARLOS SANTIAGO # Suicídio Carlos Santiago, analista político, sociólogo e advogado

Ele caminhava em direção oposta à vida. Tinha um aspecto estranho, mórbido. Sei que não possuía mais um semblante de humano. Era apenas um corpo, um espectro. O rosto e o corpo eram juvenis, mas o seu olhar já não tinha vida. Havia ultrapassado as três barreiras que funcionam como obstáculos da fronteira entre a vida e a morte: a tristeza, a melancolia e a depressão. Nos seus olhos já não haviam lágrimas, nem tinha ele o olhar voltado ao nada, apenas queria, desejava e buscava a finitude da sua própria vida, a sua morte. Estava decidido a por fim à sua existência. Havia perdido o elo, o laço com o mundo. Nada mais importava: amor, família, amigos, conhecimento, religião, Deus. Todos os valores mais caros agora inexistiam para ele, o seu tempo terreno findou.

 

Sua mãe, seu pai, amigos, médicos e até desconhecidos pediam a ele para não se matar, ser forte, orar, praticar esportes, buscar ser mais alegre... Afirmavam que a morte nunca é um bom caminho. Ele ouvia e dizia eu sei, vou vencer,  me cuidar, serei forte. Alguns questionavam as atitudes e tentavam adivinhar qual seria a causa “daquilo”. Talvez, um amor não correspondido? Um trauma de infância? Uma sexualidade mal definida? Uma doença crônica? Afirmavam que para mantê-lo vivo a vigília deveria ser constante. Não se poderia deixá-lo sequer um momento. Acompanhariam sempre. Mas a morte é traiçoeira, não deu para evitar, ele se jogou da ponte. A estreita ponte que separa a vida da morte.

 

O referido episódio faz parte de uma história trágica que vem sendo contada e recontada na literatura, na sociologia, na psicologia e, infelizmente, na vida real. Mas o que leva uma pessoa a querer dar cabo da própria vida? O importante não é compreender o ato. Esse, todos sabemos, é o último elo decisório que irá suprimir voluntariamente a própria vida. O mais importante não é saber sobre o desfecho, o ato final e psicológico, que não passa de uma decisão singular e vazia de sentido. O importante é tentar compreender as causas e como se processa a cadeia de decisões que levam uma pessoa a buscar na morte a solução de seus problemas.

 

Na Suíça, existe o suicídio assistido, sendo um local de interesse cada vez maior por quem quer dar cabo da própria vida. Espanha, França e  Holanda querem legalizar essa prática. No Brasil o debate em torno do suicídio ainda é ínfimo, talvez, por questões emocionais e familiares, culturais, mas principalmente por falta de políticas públicas voltadas para esse tipo de ocorrência. É claro, que tratar o fenômeno sempre como tragédia, obnubila mas do que esclarece as causas do suicídio. É necessário redimensionar a importância desse fenômeno social, colocando-o na agenda do dia do Estado, da família e do próprio indivíduo. Entendê-lo em toda a sua extensão é a melhor forma de compreender as causas, o encadeamento de decisões e o seu ato final.

 

Não se pode prevê se o suicida se jogará da ponte, do prédio, viaduto; não há como saber se ele amarrará uma corda no pescoço ou se dará um tiro na cara. O que está em jogo não é o local do fato, mas as dores, angustias e sofrimento que estão na mente da pessoa. Metaforicamente, podemos dizer que a vida de cada pessoa é como um caleidoscópio, dependendo do seu ponto de vista ela vai ser lilás, azul, branco ou colorido. Afirmam que a vida de um suicida é preto e branco, talvez porque, antes dele tirar a própria vida, sua esperança de viver já morreu. A morte ou a vida da esperança é a pena de Maat que vai fazer a balança da vida e da morte pender para um lado ou outro.

 

*O autor é sociólogo, analista político e advogado*

Sobe Catracas

RUI MACHADO, artista plástico

Recebeu comenda da Ordem do Mérito Legislativo da Aleam, em reconhecimento por trabalho com coisas da Amazônia

Desce Catracas

RONALDO TABOSA, vereador de Manaus

Pela quarta vez, teve mandato cassado pelo TRE/AM, dessa vez, por infidelidade partidária com o PP