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Atualizado em 11/08/2019

ROBÉRIO BRAGA #O tempo que passa

ROBÉRIO BRAGA #O tempo que passa Robério Braga, presidente da Academia Amazonense de Letras ( foto: A CRITICA)

Sempre ouvi falar que o tempo é um santo remédio para as dores da alma e as tristezas da vida, mas não sei se posso concordar com essa assertiva. Cada leitor deve ter sua conclusão a respeito, mas, de mim para comigo, tenho que há dores que não cessam com o remédio do tempo e tristezas que não se apagam, mesmo passados muitos anos.

 

No cotidiano, por entre a correria que a vida nos impõe e que é cada vez maior, até parece que tudo está calmo ou que as dores não sangram mais. No momento das orações diárias o bálsamo da prece produz a sensação de cicatrizar as pequenas quedas e os leves arranhões e até as lascas mais profundas dando leveza ao ser. Quando passamos a fazer um apanhado do passado, recolhendo lembranças e relembranças, é que nos damos conta dos muitos vazios que foram ficando e que julgávamos sarados.

ROBERIO

Em mim, abre-se sempre a saudade imensa do meu velho marinheiro, pai e amigo, aquele que guardo para sempre no âmago profundo tanto quanto no coração, e muita vez pareço sentir – e sinto de verdade – que ele está bem perto e pronto para me socorrer com seu olhar, com a palavra mansa e firme, e a coragem com a qual enfrentava os temporais do grande Solimões e procurou vencer o incêndio que destruiu o “Manauense”.

 

Quem o conheceu, ainda que à meia distância como diziam os antigos quando não havia intimidade entre as pessoas, não cansava de propalar suas qualidades como trabalhador infatigável, jornalista destemido mesmo na fase mais dura de afirmação dos direitos trabalhistas, líder sindical que sabia levar os liderados sempre a porto seguro nas reivindicações que faziam, partícipe da chefia de partido político, e desprendido candidato que abriu mão da campanha de sua candidatura à Constituinte do estado para não dividir as forças de várias tendências que se alinhavam em derredor do Partido Trabalhista Amazonense.   

 

Destemido, firme e audacioso como descrevia Mário Ypiranga Monteiro que o conheceu de perto e com ele conviveu em algumas frentes de trabalho, havia outro que sempre admirei bem de pertinho, aquele que educava com o olhar e com o silêncio, com o exemplo e a palavra bem medida, mas sobretudo amor, conforme muitas vezes foi demonstrado a todos os filhos por razões variadas. Afável e modesto, singularmente modesto, honrado e sereno, pronto a enfrentar as borrascas viessem de onde viessem, sei que preferia o céu azul e limpo com o qual costumava navegar pelos rios amazônicos. Poeta de versos que sempre gostei de declamar quando bem menino, ainda de calças curtas e engomadas pelo ferro de carvão que minha mãe – mestra, e grande mestra e mãe – se esmerava em preparar a roupa simples que eu vestia nas tardes de domingo para subir ao palco do Teatro Amazonas.

 

Gostava de contar histórias de antigamente, relembrando episódios que assistira, participara ativamente ou que havia liderado como a ocupação do prédio que havia sido destinado à Casa do Trabalhador e que não lhes era entregue. Falava dos amigos que granjeara, das pessoas cujas vidas salvara impedindo que pulassem no estrito de Breves, e tantas e tantas outras... de política, luta sindical, jornalismo e do folclore com seu brigue Independência de muita alegria.

 

Um dia, longe daqui, quando lutava para continuar conosco, abri a porta da pequena sala de atendimento médico onde se encontrava em recuperação de longa cirurgia ortopédica e me deparei com a sua quase despedida. Não vi o seu olhar nem ouvi a sua voz, mas senti que estava sendo cumprida a sua passagem física entre nós. Encostei a porta e rezei como ele nos ensinara a falar com Jesus. Dias depois imaginei que o ditado popular estaria certo e o tempo como santo remédio iria acalmar aquela dor e a tristeza profunda que se abatera sobre mim e todos nós que o amamos.

 

Ledo engano! lá se vão 33 anos e o vazio aumenta, a dor arde como no primeiro instante e há muito compreendi que o tempo passa, mas a dor fica para quem ama de verdade.     

*O autor é Presidente da Academia Amazonense de Letras 

*Artigo originalmente publicado no Jornal A CRÍTICA     

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